O enforcador
Você com certeza já viveu algo parecido. Aquele dia em que atravessou o limite da seca e sabe que precisa desesperadamente transar com alguém, qualquer um, dentro dos limites do aceitável, e provar que as coisas ali ainda estão funcionando. Você acabou de chegar de uma viagem de trabalho, é domingo e mal começou a anoitecer. Muito cedo para se entregar à masturbação, e você não está com paciência para ouvir a propaganda do Brazino pela milésima vez.
Sendo um homem gay contemporâneo e militante, no dia a dia você rejeita qualquer estereótipo sobre promiscuidade e lamenta que as pessoas sejam tão limitadas em suas visões da comunidade LGBTQIA+. A Rita do grupo de condomínio do WhatsApp compartilharia alguma notícia sobre PrEP e diria que esses homossexuais só pensam em sexo e ficam por aí transando com qualquer um. Você mandaria um textão gerado pelo ChatGPT, debochando da incapacidade dela de compreender a pluralidade das relações homoafetivas. E sorriria com triunfo ao ver os corações e palmas se acumularem nas reações, enquanto Rita, humilhada, ficaria relegada a apenas avisar quando o Mercado Livre estivesse na portaria.
Rita provavelmente gargalharia e o chamaria de mais um “veado promíscuo” se o visse agora, e você não teria muitos argumentos para refutar. Resignado, preenche seu perfil no Grindr com “versátil”, mesmo tendo sido passivo apenas uma dúzia de vezes na vida. Você só quer aumentar as chances de pegar qualquer um que tenha tomado banho e tenha todos os dentes na boca. Talvez ainda releve um ou dois dentes a menos.
“Ativo 100% tocou você”.
Seus olhos se estreitam ao examinar a notificação preta e laranja. Um metro e setenta e oito. Tipo físico: Musculoso. Nenhuma foto. Nenhum texto engraçadinho ou autodepreciativo. Zero informações adicionais, embora o app tenha uma dezena de campos disponíveis. Uma voz sábia da sua consciência, que na sua mente tomou a forma da Cher, balança a cabeça em protesto.
— É cilada, Will.
— Às vezes ele só é discreto e não quer se expor no aplicativo. A gente não pode julgar as pessoas.
— Ele não colocou nem o que curte no perfil.
— Acho que “ativo 100%” deixa isso bem claro.
— Ele pode ser um Jeffrey Dahmer.
— Qualquer um no Grindr é um Dahmer potencial.
Cher suspira e desiste ao perceber que os níveis de testosterona já subiram acima de qualquer argumento racional. Você manda um tap ao perfil anônimo e quase imediatamente outra notificação chega.
“E ae mano. Tesão aqui”
Direto ao ponto. Você balança a cabeça em concordância. Ele nem imagina o quanto você também está.
“Blz e vc. Tbm 🔥”
O emoji de foguinho não é necessário, mas só o “tbm” parecia demasiadamente seco, e você ainda quer transparecer um pouco da sua personalidade, mesmo para uma transa casual.
“Pessoal aqui é muito enrolado. Afim agora?”
“Pessoal é mesmo, to afim sim. Tem local?”
Você obviamente não quer um estranho potencialmente psicopata na sua casa. Ou simplesmente tem vergonha da quantidade absurda de pelos que seus coelhos espalharam pela sala e do leve aroma de feno velho e poeira no ar. A faxina fica para amanhã.
Localização recebida 📌
Não era longe. Uns 15 minutos a pé e, pelo mapa, ele estava em um dos hotéis na beira da estrada perto da sua casa. Não é um hotel ruim, o que é reconfortante.
“É perto de mim, consigo ir sem problemas. Tem fts?”
Apesar de seus padrões terem descido uns 4 ou 5 pontos abaixo do normal, você também não é idiota. O cara não tinha nem a idade no perfil. Podia ser mais feio que a morte, e não haveria tadalafila no mundo para fazer milagre.
Álbum recebido 📷
O estranho claramente não queria perder tempo com conversa fiada. Você vasculha as fotos, agradavelmente surpreso. Ele parecia ter perto dos 30, era realmente musculoso, branco, quase sem pelos e tinha algumas tatuagens de gosto duvidoso espalhadas pelo corpo. Não havia uma foto de rosto; o mais próximo disso era uma do nariz pra baixo, mostrando um maxilar bem definido e uma barba louro-escura ou castanho-clara. Do nariz para cima era um mistério, mas você decide que não se importa. Mesmo que fosse careca — o que normalmente não passaria no seu filtro —, seus padrões estavam baixos o suficiente para abrir uma exceção.
A única coisa que o desanima um pouco são os nudes. Não que ele tivesse um equipamento horrendo. Apesar de ser gay, você nunca achou o pênis um órgão particularmente bonito e normalmente é indiferente às imagens de um. Não, o problema era o tamanho. Até a garrafinha de água que trouxe da viagem se encolhe envergonhada ao olhar aquilo que claramente pertencia à seção “dotados” do XVideos. A visão daquele membro grotesco atrelada a um perfil chamado “ativo 100%” o faz temer pela própria integridade física.
“Gostoso vc. Mas não vai rolar ser passivo com vc não rs”
“Ahhh, sério?? Pq?”
“Grande demais. Aguento não, foi mal”
“Mas uma mamada rola? Tbm fico doido com uma mamada”
Você pensa por alguns segundos. Já conheceu homens declaradamente ativos que acabaram se revelando passivos fogosos. Não era raro e, de qualquer forma, sexo não precisava se resumir a penetração.
“Já dizia o ditado né. Uma mamada e um copo d’água não se negam a ninguém 😜💦”
Você se arrepende assim que envia. Por que tem que ser sempre engraçadinho? Seja objetivo e direto que nem ele, você nem sabe o nome da criatura.
“hahaha aí sim. Tem mais fts?”
Seu estômago despenca alguns centímetros. Você sabe o que querem dizer quando pedem isso. Seu perfil já tem fotos de rosto, corpo inteiro, com óculos, sem óculos. Então, quando pedem mais, normalmente querem nudes.
Dois anos de um casamento desgastante o deixaram fora de forma, e seus dotes eram mais próximos da média nacional do que você gostaria de admitir. Você evita chamar de “pequeno” e prefere adjetivos mais espirituosos, como “anatômico” ou “pau de marido”.
Bom, não tem como fugir. Você vasculha as fotos com ângulos e iluminação cuidadosamente escolhidos e envia as mais aceitáveis. Enquanto aguarda a resposta, a visão da sua barriga o faz amaldiçoar o último lanche do McDonald’s.
“Delícia vc. Já está vindo? Aqui no hotel é só chegar, nem precisa falar nada na recepção, to no quarto andar. Chegando aqui te falo o número do quarto”
Você levanta as sobrancelhas. Ele realmente não estava brincando quando disse que estava com tesão.
“Só vou tomar uma ducha e já vou então. Meia hora eu to aí”
“Blz, pau tá babando aqui já”
Você reage com um foguinho — o padrão de reações do aplicativo — e larga o celular para se arrumar. Enquanto toma banho, tenta não pensar em quão inconsequente é aquilo que está fazendo. Meu Deus, que falta de juízo.
Já na rua, caminhando até o hotel a passos rápidos, coloca uma música bem alta para abafar os grunhidos de protesto que Cher começa a emitir na sua cabeça. Aparentemente, já temos a resposta para a pergunta sobre se ela acredita em vida após o amor.
Ao chegar no hotel, abre o aplicativo.
“Você já está vindo?”
“nuss, não to aguentando aqui, minhas bolas tão até doendo”
“vem logo”
Que impaciente. Você também não é delivery de sexo.
“Já cheguei, to aqui no 4o andar. Qual o número do quarto?”
“432”
Você encontra a porta em meio ao corredor mal iluminado e bate discretamente. Um hóspede de outro quarto te observa com curiosidade enquanto espera. Sim, meu senhor. Eu vim transar com um estranho, me julgue.
A porta finalmente se abre e seu coração dispara.
Você tenta segurar o queixo para não parecer muito impressionado. Ele não só não é careca como é extremamente bonito, em um nível em que você normalmente precisa gastar muito carisma para conseguir que um cara desses te dê uma chance. Usa uma regata oversized branca, está só de cueca e parece completamente em ponto de bala. As mensagens não eram só discurso. Ele tranca a porta e imediatamente te puxa para um beijo firme, sem cerimônia.
E o beijo é excelente.
Ele te solta com um sorriso e te leva para dentro.
— Vamos pro quarto? Quer uma água?
— Claro, vamos sim. Tô de boa, valeu.
A Cher na sua cabeça está completamente silenciosa, ainda que vasculhe o hotel à procura de sinais de alerta. Não há nenhum. O quarto está meio bagunçado, mas as roupas sociais e malas deixam claro que ele está na cidade a trabalho.
— Você está por aqui a trabalho?
— Isso, eu tô na cidade sempre, mas sou de São Paulo.
— Ah, bacana. E o que você faz?
— Segredo! — diz ele com um sorriso safado, puxando você para outro beijo.
Você decide que não se importa com a profissão do estranho. A pele dele tem um cheiro gostoso, sem perfume, só o cheiro dele e do sabonete do hotel. Ele começa a tirar a sua roupa e você a dele. O corpo realmente é musculoso, mais magro e definido do que volumoso. Você fica feliz de ver que seus músculos ainda se sobressaem aos dele, ainda que sem a mesma definição.
Sem cerimônia, ele começa a te empurrar em direção à própria virilha. Enquanto remove a cueca dele, você sente um misto de tesão e desespero ao perceber que as fotos não fizeram jus ao que estava na sua frente. Era ainda maior.
Você faz o seu melhor, e não demora para o maxilar reclamar em protesto. Reflete brevemente sobre como deve ter sido legal viver na Grécia Antiga com aquelas estátuas em modelos de carne viva e seus dotes modestos e confortáveis.
Ele geme alto e fala sacanagem. Não é muito seu estilo, mas você entra na dele enquanto ele segura sua cabeça.
— Fica paradinho assim. Isso. Só abre a boca pra mim, vai. Não mexe. Vai me obedecer, né? Que delícia. Agora empina assim pra mim. Vai, me obedece.
— Que empina o quê, vou obedecer não.
Ele ri satisfeito, provavelmente achando que você está entrando no jogo e fazendo charme. Mas você só detesta autoridade e odeia que te digam o que fazer. Antes que possa reafirmar que está falando sério, ele te puxa para outro beijo, agora deitados na cama, e você se lembra de como ele beija bem e de como não transa com ninguém desde que se divorciou. Brincar de dominador e submisso talvez não seja tão ruim assim.
Enquanto te beija, as mãos dele descem para o seu pescoço e começam a apertar de leve. Cher, que estava escondida num canto da sua mente tentando te dar privacidade, se levanta em alerta.
— Enforcar não — você diz calmamente, segurando o pulso dele.
Ele ri, os olhos brilhando, e te beija de novo. Acho que, se beijasse mal, você já tinha mandado ele à merda.
— Enforcar não, é? Você não vai fazer o que eu tô mandando não?
O aperto se intensifica e você reflete em como reagir. Lembra de ter visto em algum lugar que algumas pessoas têm fetiche nisso, provavelmente com algum nome besta em inglês, choke play, air play ou alguma coisa parecida. Você:
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Se entrega. Já estamos aqui mesmo, e quem precisa de oxigênio, né? Se desmaiar, pelo menos desmaia de pau duro.
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Chora. Fala que tá com dor de garganta, o aperto tá doendo muito e você só queria um chamego.
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Revida. Você é maior que ele e tem muita angústia acumulada.
Seu senso de autopreservação, que curiosamente também é a Cher, descarta rapidamente as opções 1 e 2. As chances do cara gostar e acabar se empolgando são grandes, e você imagina a manchete: “Homossexual morre em acidente trágico durante o sexo”.
Ainda assim, o ponto decisivo para escolher o número 3 é lembrar que esqueceu de colocar ração para os coelhos e ia passar na Cobasi na volta.
E ninguém mexe com seus coelhos.
— EU FALEI QUE ENFORCAR NÃO, CARALHO.
Você já está meio rouco das estocadas daquela aberração anatômica no fundo da garganta e do aperto. Usa sua melhor voz de hétero bravo e torce o braço dele com força para longe. Até você fica impressionado com o quanto é efetivo.
Ele arregala os olhos e te solta. Ali, naquele momento, vulnerável, parece não passar de 20.
— Nossa, desculpa de verdade. Não sabia que você não gostava, achei que tava curtindo. Desculpa mesmo.
— Da primeira vez que eu falei não já era pra se tocar, né? Você é surdo?
— Pensei que tava brincando, desculpa.
— Tudo bem.
Os segundos passam. Os dois pelados na cama, agora completamente murchos e amolecidos, se encaram num silêncio constrangedor. Você começa a desejar que ele tivesse terminado de te enforcar de vez.
— Bom, acho que é melhor eu ir embora. Você viu minha cueca?
— Tá bom. Acho que joguei ali naquele canto.
Ele também se levanta e começa a se vestir. Você coloca as roupas rapidamente, em completo silêncio, ciente do sorriso satisfeito de “eu te avisei” que Cher lança na sua cabeça.
Para piorar, agora os dois vestidos novamente em frente à porta, ele te puxa para outro beijo. Dessa vez lento, romântico.
Meu Deus, como ele beija bem. Devia ter deixado ele me enforcar mesmo.
Você começa a amaldiçoar esse povo da cidade grande e a indústria do pornô, que fazem deixar de aproveitar um sexo mais baunilha e gostosinho. Vocês ficam alguns minutos se beijando, e você começa a querer tirar as roupas de novo quando ele para, segura sua cabeça e sorri meio triste.
— Tchau.
Você pisca, meio atordoado, entende o recado e se vira para sair.
— Bom, sinto muito que… Quer dizer, ainda assim gostei de te ver. Você é muito bonito e parece um cara bacana.
— Valeu, mano.
— Você nunca falou seu nome. Ou com o que trabalha.
— Não tem problema.
Você franze a testa e espera alguns segundos, mas ele apenas continua sorrindo. Não um sorriso de dar medo, só um que te convida a sair dali logo. Você percebe que, assim que ele trancar a porta, vai te bloquear no Grindr e você nunca vai saber o nome dele ou com o que trabalha. Dá um aceno tímido e sai.
No saguão, as pessoas olham com curiosidade para seu cabelo desarrumado e suas roupas desalinhadas. Ao chegar no condomínio, claro que Rita está na entrada conversando com o porteiro.
— Olha quem chegou. A noite foi boa pelo jeito, hein.
Você sorri e segue para o elevador.
Quem dera, Rita, quem dera.
Você coloca ração para os coelhos e faz um cafuné atrás das orelhas deles quando ouve o “trulum” familiar do Grindr.
“Pig leitador 53 anos te enviou uma mensagem”
“Que delícia você. Curte mijar num coroa?”
Quero reencarnar como uma mulher lésbica na próxima vida.