Gabriel — Primeiro contato

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Era de se esperar que eu já estivesse me acostumando com esses primeiros encontros. Apesar de um começo não muito promissor na minha vida de homem divorciado e pronto para a luta, eu já havia tido algumas interações positivas. Algumas definitivamente muito boas, diga-se de passagem. Mas a insegurança tomava conta de mim sempre que eu me aproximava da pessoa que havia marcado um encontro comigo, independentemente do quanto havíamos conversado ou de quantas fotos minhas ela tinha visto. Naquele breve instante, tudo parecia errado. Meu peso, minha aparência e até as minhas roupas.

Nesse encontro específico, amaldiçoei o dia escolhido, já que o figurino estava particularmente questionável. Uma calça de tecido cinza amarrotada, uma regata folgada branca com algumas manchas pretas de tinta de tatuagem e uma blusa de moletom cinza extremamente velha completavam o look. Com certeza não era o que você esperaria de alguém que quer te impressionar no primeiro encontro, mas eu não tive muita escolha. Dali eu iria diretamente para o estúdio de tatuagem para uma sessão, e as roupas haviam sido escolhidas especificamente para esse fim.

Gabriel me viu chegando a pé e não pareceu se importar. Sentado em uma cadeira na calçada em frente ao café que havíamos combinado, ele me escaneou de forma discreta e sorriu ao me ver. A aparência dele só reforçou meu sentimento de inadequação. Muito bem arrumado, com peças claras em tons de bege combinando e, quando me aproximei para um abraço, muito cheiroso. Me toquei na hora que não tinha jogado nem um perfume no corpo.

— Oi, tudo bem?

— Tudo certo, e você?

— Tudo ótimo. Será que tem mesa lá dentro? Eu não posso ficar no sol por causa da tatuagem…

— Ah, não… quer dizer, não sei. Deve ter. Tem sim. Vamos lá.

Constrangido por ter que fazer o menino levantar-se da mesa em que estava, fiquei pensando por que raios eu tinha concordado em encontrá-lo sabendo da correria que seria. Ele era muito bonito, claro, e a conversa tinha fluído muito naturalmente, o que não é exatamente algo muito comum no Grindr. E ter um café da manhã como primeiro encontro com certeza era uma espécie de anomalia estatística para os usuários do aplicativo.

Sentamo-nos a uma mesa no espaço interior do café e me permiti relaxar um pouco. Eu havia aprendido a deixar os pensamentos acelerados fluírem e passarem sem ficar segurando neles com muita força e foquei no rapaz à minha frente. Ele era alguns centímetros mais baixo que eu e usava óculos arredondados de armação fina. Os cabelos eram cacheados, com cachos bem definidos. A barba aparada bem curta, com um bigode que fazia uma curva adicional quando ele sorria. O que me chamou a atenção, porém, foi o olhar. Analítico e levemente separado do sorriso. Ok, inteligente. Provavelmente mais do que demonstra. Cauteloso.

A conversa fluiu tão bem quanto no digital. Ele tinha um humor espirituoso, mantinha o equilíbrio ideal entre falar de si mesmo e escutar a outra pessoa. E ficou óbvio que tínhamos bastante em comum. Não tínhamos muito tempo — menos de uma hora antes de cada um ir para seus compromissos —, mas foi o suficiente para que eu contemplasse a possibilidade de um segundo encontro.

Nem sempre acontece, é claro. Uma nuance interessante sobre estar solteiro depois dos 30, sobre a qual poucas pessoas me alertaram, é que as pessoas são muito boas em fingir. A ideia de química envolve muitas coisas, mas, com a idade, a gente aprende a ser simpático em qualquer situação. Não é incomum você ter um encontro completamente aceitável nos aspectos sociais, sem nenhuma incompatibilidade aparente, e ainda assim o segundo encontro nunca rolar e você não saber por quê. A outra pessoa talvez não tenha sentido atração da mesma forma que você, mas tenha sido educada demais para deixar isso transparecer. Ou o oposto. Às vezes, você gosta muito da companhia da outra pessoa, mas não quer parecer emocionado e se segura para não deixar as coisas saírem de controle e se machucar.

Uma pena, claro, mas é difícil passar dos 30 e não ter nenhuma bagagem emocional, então é difícil culpar as pessoas por andarem a passos hesitantes. E Deus sabe que eu provavelmente deveria fazer o mesmo e colocar umas rédeas nos meus impulsos.

Nos levantamos e fomos em direção ao caixa. Hesitei e pensei se deveria me oferecer para pagar quando a atendente perguntou se era junto ou separado. Ele também pareceu hesitar por uma fração de segundo antes de dizer “separado”. Cauteloso.

Pagamos e saímos em direção ao sol. Ele olhou diretamente nos meus olhos e sorriu.

— Então é isso. Tchau.

— Tchau, gatinho.

Antes de conseguir me recriminar por usar o apelido de “gatinho”, nos aproximamos mais e um instinto me levou a um beijo suave. Não sei de quem foi a iniciativa, mas ambos corresponderam de bom grado. Segurei na cintura dele, nossos corpos se aproximaram mais e nos beijamos por mais alguns segundos. Ele se afastou relutante, com um sorriso, e eu me dei conta de que eram 10 horas da manhã e estávamos na rua em pleno sol. Provavelmente um beijo mais intenso não seria muito apropriado para aquele horário.

Nos despedimos e, enquanto esperava meu Uber chegar, vi Gabriel se afastar a pé. Em um instante, minhas inseguranças desapareceram completamente e um calor confiante subiu no meu peito enquanto eu sorria. Naquele momento, eu tinha certeza de que queria um segundo encontro.

Emocionado? Sempre.

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