Dia dos pais
Quando eu tinha 16 anos, fui visitar um colega da escola em sua casa. Família comum, de classe média, nada muito especial ou fora do comum. Quando chegamos, a mãe correu para me receber. Ela era claramente superprotetora e se esforçava para participar da conversa. Trouxe coisas para comer, sorria o tempo todo e parecia feliz que eu estivesse ali. Meu colega, claramente irritado com a atenção exagerada, revirou os olhos para mim com um sorriso cúmplice, dizendo com o olhar: “que saco isso, né”. Eu sorri em retribuição. “Um saco mesmo”.
Eu não concordava, na verdade. Pelo contrário, não entendia por que ele parecia constrangido pela interação, sendo que a mãe parecia ser muito simpática. Existem algumas expectativas quase automáticas quando se fala da relação entre pais, mães e filhos. Dos pais e das mães, espera-se amor incondicional e apoio emocional, físico e financeiro até a vida adulta. Dos filhos, respeito, admiração e adesão aos valores familiares — sejam eles quais forem.
Obviamente, nem sempre funciona assim.
Na época, fiquei pensando em como me sentia em relação ao meu pai e à minha mãe. Ambos tinham seus defeitos, como qualquer ser humano. Nossa família também já havia passado por diversos problemas, desafiando aquela imagem de herói que as crianças costumam ter de seus pais. Ainda assim, os sentimentos de admiração permaneciam. Eu sentia não poder vê-los com tanta frequência, já que ambos trabalhavam e nossos horários nem sempre batiam.
Agora, quase 20 anos depois, me vejo refletindo novamente sobre meus pais.
Ao volante, descendo a serra que liga Campos do Jordão ao restante do Vale do Paraíba, a chuva e a neblina são quase hipnotizantes, e penso primeiro no meu pai. O motivo principal da minha visita foi o Dia dos Pais, embora as coisas não tenham saído como planejado e eu tenha me atrasado no domingo. Ouvi a vida inteira como somos parecidos fisicamente, o que acredito ser verdade. A personalidade, por sua vez, não é tão parecida, embora nosso gosto por piadas ruins talvez seja. Meu pai sempre teve um apreço por pessoas. É carismático, de sorriso fácil e gosta de conversar, enquanto eu sou mais introspectivo e observador. Em contrapartida, também tem o gênio difícil, oscilando entre o rabugento e o irritadiço quando as coisas não estão como ele prefere. Péssimo mentiroso, nunca foi bom em esconder seus sentimentos, para o bem ou para o mal. No domingo, cheguei depois das 7 da noite e foi essa versão que me recebeu.
— O senhor foi pra Santana hoje?
— Fui, né? Não tinha filho nenhum meu aqui, ia ficar fazendo o quê?
Eu sorri com a alfinetada. Minhas irmãs também não tinham aparecido para almoçar com ele a tempo, e nosso almoço de Dia dos Pais já era praticamente uma tradição. Expliquei a razão para meu atraso e começamos a colocar a conversa em dia. Já fazia alguns dias que eu não aparecia para visitá-lo. Aos poucos, ele foi recuperando o humor, claramente feliz por não ter sido esquecido por algum motivo mais egoísta e entendendo que desencontros acontecem quando todos os seus filhos já são adultos.
Eu o observei falar com entusiasmo sobre seu trabalho paralelo como motorista de Uber, principalmente sobre a coleção inesgotável de anedotas que os passageiros proporcionavam. Sempre fiquei intrigado com a relação do meu pai com o trabalho. Não conheço mais ninguém com 58 anos que fale de forma positiva sobre uma carga extra que assumiu por questões financeiras. Obviamente, não era apenas um hobby, mas uma necessidade da família, que vinha enfrentando uma sequência constante de problemas nos últimos dois anos. Ainda assim, mesmo visivelmente cansado após trabalhar mais de 80 horas na semana, ele nunca deixou de aproveitar as experiências de alguma forma, tirando algo de positivo daquilo.
Era uma forma muito diferente de ver o trabalho. Todo mundo conhece a utopia do “trabalhe com o que você ama”. Sempre achei esse ditado meio estúpido. Nem tudo o que a gente ama é um trabalho viável ou sustentável. Tenho certeza de que meu pai adoraria viver apenas da sua arte, sua verdadeira paixão. Entretanto, ele é pragmático o suficiente para saber que isso não é uma opção quando se tem uma família e responsabilidades. Então a filosofia dele sempre foi algo mais do tipo: “ame o que você trabalha”. E isso é infinitamente mais difícil.
Eu sei o quão privilegiado sou hoje por trabalhar com algo que realmente amo e que faço de graça no meu tempo livre. Em outros momentos da minha vida, porém, tentei aplicar essa filosofia e apreciar aquilo que ocupava a maior parte do meu dia. Carpe diem, só que menos idealista e mais prático. E te garanto: quando eu estava atrás de um balcão de bar — me contendo para não arremessar uma garrafa na cabeça de um cliente folgado às 5 da manhã —, era bem fácil esquecer essa filosofia.
Mas não para o meu pai.
Ele pode ser bem ranzinza e reclamão e, obviamente, também reclama do trabalho como qualquer pessoa. Mas nunca o ouvi reclamar de ter que trabalhar. Não trabalhar nunca foi uma opção para ele, então qual o sentido?
Carpe tripalium.
A chuva e a neblina já haviam cessado quando cheguei à via Dutra e me aproximava de São José dos Campos. Nesse ponto, meus pensamentos se voltavam à minha mãe. Pude passar o dia seguinte com ela, que estava de folga, e passamos boa parte desse tempo conversando. Eu amo meu pai com todas as minhas forças, e tenho certeza de que ele sabe disso, mas ele também sabe que a ligação que tenho com a minha mãe está em outro patamar. Sempre fui muito próximo dela, e nosso relacionamento só se fortaleceu ao longo dos anos. Ela é minha amiga e confidente. Ainda me surpreende nossa capacidade de conversar com frequência e, mesmo assim, sempre ter assunto.
As conversas passam por tudo. Se inteirar dos acontecimentos recentes dos outros membros da família é essencial, e minhas aventuras pós-divórcio são uma pauta constante.
Dessa vez, porém, um tópico específico me marcou.
Minha mãe contava sobre dois jovens que trabalhavam com ela no hotel, cada um com seus próprios problemas e desafios. Não era a primeira vez que ela desenvolvia uma relação desse tipo. Jovens costumam gravitar ao redor dela, atraídos por essa aura tão forte de mãe, pela escuta atenta e pelos conselhos sábios. A carência de uma figura materna forte é, infelizmente, algo comum, então nunca me surpreendi que esses relacionamentos se construíssem ao redor dela de forma tão orgânica.
O que me surpreendeu, agora que eu conseguia pensar na conversa com mais calma, era como a minha mãe ainda conseguia dar qualquer forma de apoio a essas pessoas quando ela própria já estava tão sobrecarregada emocional e fisicamente. Problemas de saúde e um emprego fisicamente desgastante como faxineira se somavam a uma preocupação constante com minhas duas irmãs, que passaram mais de um mês internadas nos últimos dois anos e que ainda não estão — e talvez nunca estejam — 100% recuperadas dos episódios.
Ninguém a acusaria de egoísmo se ela assumisse uma postura de indiferença diante dos problemas de outras pessoas quando já tinha tanta coisa com que se preocupar. Ainda assim, ela falava dos problemas da jovem mãe solteira que trabalhava com ela como se fossem os maiores do mundo, visivelmente preocupada e entristecida por não poder fazer muito para ajudar. Empatia é apenas um sentimento ou um conceito abstrato para algumas pessoas, mas eu nunca vi a minha mãe viver de outra forma.
Ao chegar cansado no meu apartamento e me lançar na cama sem muita cerimônia, só pude me sentir contente por ter escolhido ir ver meus pais. No dia anterior, eu tinha cogitado não subir para vê-los no fim de semana. Estava exausto, e não parecia que eu conseguiria aproveitar muito o tempo com eles.
Quando criança, eu sempre dizia que queria ser como meus pais quando crescesse. Aos 16, eu ainda não sabia explicar direito porque aquela cena na casa do meu colega tinha me incomodado tanto. Acho que, mesmo naquela época, eu já entendia que havia algo de muito valioso em ainda olhar para os próprios pais com admiração depois que a imagem de herói desaparece.
Hoje, só desejo ter herdado um décimo da essência que eles trouxeram para o mundo.
A forma como admiro meus pais mudou muito ao longo dos anos. Já encontrei motivos para admirar o talento do meu pai para o desenho. A gentileza da minha mãe com estranhos. A cada dia, descubro um aspecto novo: a resiliência, a empatia, o amor à vida e à família. Agradeço o sacrifício que fizeram e fazem por mim ao longo dos meus 33 anos de existência. Agradeço por nunca ter sido julgado por quem eu sou ou por minhas escolhas de carreira ou de vida.
Se eu errar como eles também erraram, espero conseguir me levantar com o mesmo sorriso no rosto que eles mantiveram diante de cada desafio que enfrentaram.